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Sávio Neves: ideia é criar um aquário renovável

Sávio Neves é o atual presidente do conselho de administração do AquaRio. Foto: Divulgação/Gustavo Guimarães
Sávio Neves é o atual presidente do conselho de administração do AquaRio. Foto: Divulgação/Gustavo Guimarães

Sávio Neves é um dos três sócios que controlam o AquaRio, aquário marinho inaugurado no dia 9 de novembro, na capital fluminense. Em entrevista à Adorável Criatura, o empresário explicou resumidamente a concepção do projeto e a logística envolvida em sua execução.

Galeria: confira nossa seleção de fotos do AquaRio

Neves, que atualmente preside o conselho de administração do AquaRio, também rebateu críticas à criação do aquário e expôs as medidas tomadas para, segundo ele, garantir o bem-estar dos animais ali presentes. Confira:

As opiniões dos nossos entrevistados não necessariamente refletem a posição da Adorável Criatura a respeito de qualquer tema. Nosso blog privilegia a pluralidade de ideias e o debate aberto a respeito de temas ligados aos animais.

Adorável Criatura: Gostaria que o senhor explicasse a concepção do projeto do AquaRio. Qual foi a sua participação?

Sávio Neves: O Marcelo Szpilman (diretor técnico do AquaRio) é um biólogo marinho conceituado, tem muitos livros. Inclusive, ele é o maior especialista do Brasil em tubarões. Ele é professor da UFF, mergulhador. Sempre teve essa ligação com peixe. E ele identificou essa ideia de que as pessoas só vão gostar dos tubarões, dos animais marinhos, à medida que elas têm contato e conhecem as criaturas.

Então foi essa a ideia dele: para preservar, precisa ter o aquário marinho. Ele sonhou com isso, só que não conseguia viabilizar o investimento, que é de 150 milhões de reais. Ele é meu amigo, me conheceu na Associação Comercial do Rio. Então eu chamei dois sócios, e os dois toparam.

Investimento no AquaRio foi de cerca de 150 milhões de reais. Foto: Yuri Hutflesz

Investimento no AquaRio foi de cerca de 150 milhões de reais. Foto: Yuri Hutflesz

Criamos a empresa AquaRio SA e contratamos o Marcelo como nosso diretor técnico. Ele ganhou o apelido de diretor-presidente, mas na verdade ele é o interlocutor, ele que verbaliza a nossa intenção ali dentro do AquaRio. E existe também um diretor administrativo.

AC: Quais são os aspectos logísticos envolvidos na captura dos animais?

SN: Os peixes que estão no aquário são, em sua maioria, daqui da Baía de Guanabara. Nós estamos mostrando no tanque oceânico o que seria a Baía de Guanabara se a gente tivesse cuidado dela. Não estamos pegando peixe lá em Recife ou no Rio Grande do Norte. A gente pega aqui direto, só que a 50km da costa.

Na maioria das vezes, são pescadores daqui do Iate Clube. Eles voltam para o clube e lá os peixes são acondicionados em caixas próprias para transporte de animais e levados para dentro do AquaRio. Aí ficam numa quarentena, são tratados para doenças, para não contaminarem os outros que já estão lá. Depois de quarenta dias, eles são introduzidos no tanque oceânico.

AC: Como foi a captação da água para o AquaRio?

SN: A captação da água encareceu demais o nosso negócio. Normalmente, o que a gente poderia fazer: temos uma mangueira, que fica na beira do cais, na baía de Guanabara. Era só buscar água ali com bomba e jogar para dentro do tanque. Como a água é poluída, cheia de metais pesados, químicos, tóxicos etc., tivemos que pegar água lá embaixo, com balsa. A mesma balsa que busca petróleo, só que adaptada para água, com capacidade para 500 mil litros. Ela enche lá, traz até o porto, acopla na nossa mangueira e joga para dentro do tanque. Essa água ainda é tratada mais uma vez, apesar de já ser limpa e, aí sim, é usada para os animais.

Água coletada na Baía de Guanabara passar por um tratamento antes de usada para encher tanques do AquaRio. Foto: Yuri Hutflesz

Água coletada na Baía de Guanabara passar por um tratamento antes de usada para encher tanques do AquaRio. Foto: Yuri Hutflesz

AC: Como conciliar a rentabilidade do negócio e o bem-estar dos animais?

SN: Nós pegamos as experiências vitoriosas no mundo todo. Procuramos nos cercar dos melhores profissionais. Contratamos consultores em Portugal, porque em Lisboa tem um aquário importante, que se chama Oceanário. Tem o de São Paulo, o de Atlanta. Nós pegamos os melhores especialistas do mundo inteiro.

Fizemos esse investimento exatamente para poder compatibilizar o bem-estar, a questão do tratamento dos animais, com o negócio, que é também um equipamento turístico. Você tem ali um equipamento de pesquisa, de preservação, mas, nesse tripé, também tem um negócio.

AC: Que atividades de preservação e pesquisa se inserem nesse tripé?

SN: Existem convênios com a UFF e a UFRJ, em que universitários vão conviver diariamente ali dentro, tendo aquilo ali como laboratório de pesquisa, como uma sala de aula externa. E na questão da preservação, como acontece em muitos aquários e zoológicos do mundo, você vai ter as espécies que estarão vivendo naqueles ambientes como um banco genético para as futuras gerações.

De acordo com Sávio Neves, AquaRio funciona como um banco genético para as espécies ali presentes. Foto: Yuri Hutflesz

De acordo com Sávio Neves, AquaRio funciona como um banco genético para as espécies ali presentes. Foto: Yuri Hutflesz

Isso aconteceu, por exemplo, com o mico-leão-dourado. Ele é uma espécie aqui da Mata Atlântica e foi reduzido a 100 elementos. Então, tivemos que importar, quer dizer, foi dado pelo zoológico de Berlim. Vieram dois casais, e hoje já são mais de 5 mil em Silva Jardim, aqui ao lado, por causa desses dois casais que vieram da Alemanha.

Então, ao contrário do que as pessoas falam, que zoológico é um estorvo, é uma prisão, e que você está indo na contramão da modernidade, você tem ali um banco genético que preserva a espécie.

AC: Haverá pesquisas para melhorar a reprodução em cativeiro dos animais do AquaRio?

SN: Isso é uma inovação do Szpilman. Os ovos dos peixes que são jogados na água, nos aquários do mundo inteiro, são expurgados, vão embora pelo ralo. O Szpilman está desenvolvendo uma técnica para pegar esses ovos e desenvolver em outros ambientes, onde não tem o predador.

Depois que aquilo eclode, vêm os alevinos e tudo mais, ele vai criar, vai engordar, vai crescer e aí vai ser reintroduzido já numa fase adulta dentro do tanque oceânico. Isso é uma inovação, vai ser o primeiro (aquário marinho) do mundo que vai fazer esse tipo de preservação das espécies.

AC: A ideia é criar um aquário renovável?

SN: Exatamente, ele próprio se renova. Aí não vai mais precisar buscar peixe na natureza. Agora, tem esse argumento das pessoas que falam: “Ah, você tirou um peixe do ambiente e prendeu”. Essa tese é absurda, porque os peixes que estão lá são os peixes que todos os dias os pescadores que estão nos fornecendo pescam e matam, para virar alimento dos cariocas. Não tem nada diferente disso. Não estamos tirando nenhum peixe diferente do que todo dia vira alimento do carioca.

AC: Como será a interação com escolas?

SN: A visitação será gratuita para escolas públicas porque é exatamente esse o objetivo, criar novas gerações com o conhecimento dessa ciência. Podem ser captadas, involuntariamente, pela paixão por Biologia, Oceanografia, Veterinária. Pela primeira vez no Brasil, vai ter um aquário onde as pessoas vão poder conviver com aquele universo desconhecido.

AC: As pessoas poderão dormir no AquaRio?

SN: As pessoas às vezes estão confundindo isso. Não são as pessoas (em geral) que vão dormir, são justamente os passeios escolares, que serão acompanhados por monitores. Não é adulto. Não pode, não tem nem estrutura para isso.

Do túnel que atravessa o tanque oceânico do AquaRio, estudantes poderão acompanhar a alimentação dos tubarões. Foto: Yuri Hutflesz

Do túnel que atravessa o tanque oceânico do AquaRio, estudantes poderão acompanhar a alimentação dos tubarões. Foto: Yuri Hutflesz

São passeios escolares acompanhados de monitores de Biologia e Oceanografia. As pessoas vão passar a noite lá para acompanhar a alimentação de animais que têm hábitos noturnos, como é o caso do tubarão. Eles vão se alimentar, e quem estiver dentro do túnel vai assistir. Mas é para crianças e estudantes, para escola. É uma atividade educacional, não de hospedagem.

AC: Como ocorrerão os mergulhos no AquaRio?

SN: Os mergulhos vão começar em 2017. Quem já tem iniciação vai poder mergulhar com os tubarões, tartarugas etc. Vai ser aberto para qualquer pessoa que preencha determinados pré-requisitos, porque são mergulhos com garrafa, com tudo. Não é qualquer pessoa, não é no AquaRio que vai aprender a mergulhar. Nós vamos ter convênios com cursos, que vão treinar as pessoas fora desse ambiente. No AquaRio é só para o cara mergulhar e ficar ali, e em determinados horários.

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